10/08/2017 - 16:23 - Atualizado em 11/08/2017 - 14:57

Especial Dia dos Pais: Como a cultura do homem “forte” e “viril” pode afetar a saúde masculina

Em comemoração ao Dia dos Pais, a Postal Saúde preparou um material exclusivo para trazer à tona uma discussão que precisa ser estimulada nos lares, nas escolas, nas repartições púbicas, nas igrejas, nas redes sociais: a vulnerabilidade da saúde masculina. Além de potencializadas pelo fator genético, as causas dessa fragilidade são, paradoxalmente, provocados por uma cultura na qual o homem é educado para demonstrar força e virilidade. Essa tendência o afasta dos serviços médicos, afetando diretamente a saúde e a expectativa de vida masculina.

Francisco Norberto, coordenador nacional da Saúde do Homem:
"Na sociedade machista, expor as fraquezas afeta a virilidade"
(Foto:
Rondon Vellozo/MS)


“Os homens, desde a infância, não são estimulados a demonstrar seus sentimentos, para não terem a masculinidade questionada”. A afirmação é do coordenador nacional de Saúde do Homem, Francisco Norberto Moreira da Silva, do Ministério da Saúde. Segundo ele, uma das consequências negativas desse comportamento cultural é a falta de prevenção e de cuidados com a própria saúde. “Há uma tendência de maior morbidade e mortalidade de pessoas do sexo masculino do que do sexo feminino em praticamente todas as faixas etárias”, informa Francisco Norberto.

Mortalidade — Dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde apontam que a principal causa de mortalidade masculina, independentemente da idade, são as doenças do aparelho circulatório (doença pulmonar obstrutiva crônica- DPOC, enfisema pulmonar, câncer do pulmão, entre outras). Entre 2010 e 2015, mais de um milhão de homens morreram em decorrência dessa causa. Destes, 74,5% tinham mais de 60 anos. Por sua vez, 964,3 mil mulheres perderam a vida pelo mesmo motivo. Comparativamente, morreram aproximadamente 95 mil homens a mais que mulheres.

Além disso, em números absolutos e relativos, os homens adoecem e morrem mais de doenças cardiovasculares (infarto e acidente vascular cerebral, ou derrame), doenças do sistema digestivo, cânceres, entre outros. “Isso denota um afastamento dos homens em relação ao cuidado com a saúde, inclusive maior exposição a situações de risco, o que os leva a procurar os serviços de saúde mais pela Atenção Especializada, que é quando a doença já está instalada”, lamenta o coordenador.

Estereótipos — “Esse comportamento dificulta o tratamento e onera o sistema de saúde. O ideal seria buscar as ações e os serviços de prevenção na Atenção Básica”, defende Francisco Norberto. Segundo o gestor, essa tendência ocorre porque, na sociedade machista, "expor as fraquezas afeta a virilidade masculina", atributo “essencial” para um homem ser respeitado como tal na sociedade.

“Para um homem ser viril, ele deve ser sempre potente, dominador e estar pronto e disponível para o sexo. Quando isto não acontece, aquilo que ele espera dele próprio e aquilo que a sociedade espera dele é frustrado, levando-o a um sofrimento psíquico muito grande, por não estar desempenhando um dos papéis centrais de sua masculinidade”, explica o coordenador nacional da Saúde do Homem.

Políticas públicas — Para o gestor, o poder público e a sociedade devem estimular a mudança desses comportamentos equivocados, baseados em preconceitos de gênero e em estereótipos, que, inclusive, afastam os homens dos serviços de saúde. “Entender, desmistificar e evidenciar estas fragilidades masculinas, propondo estratégias inovadoras de inclusão, pode reduzir essas diferenças e iniquidades de acesso da população masculina aos serviços de saúde”.

A falta de informação e de debates sobre a saúde masculina faz com que nos estados do Norte e Nordeste, por exemplo, haja incidência de doenças como o câncer de pênis, cuja principal forma de prevenção é simplesmente a higiene íntima. Essa omissão também fomenta, entre os homens, o tabu relacionado aos exames para detectar câncer de próstata e de intestino, deixando-os mais vulneráveis à doença.

Abordagem — “A abordagem relacionada aos homens ainda é generalista e não considera suas especificidades. O acolhimento ainda não os escuta e não os integra da forma mais apropriada. O homem ainda é visto como quem não cuida da saúde, que não precisa procurar o serviço da saúde, e só busca quando a doença já está instalada”, conclui o coordenador.

Roseane (dir.), a mãe e o pai, Adriano: "Minha mãe é quem marca as consultas
para ele, que acaba inventando uma desculpa para não ir"
(Foto: arquivo pessoal)


Não é raro que o homem se recuse a procurar atendimento de saúde até mesmo quando já tem uma doença crônica e precisa de acompanhamento constante. É o caso do mecânico Adriano dos Santos, 50 anos, pai de Roseanne dos Santos Oliveira, 29 anos, técnica da Postal Saúde, em Brasília. Hipertenso, Adriano costuma faltar às consultas periódicas com o médico. “Minha mãe é quem marca as consultas para ele, que acaba inventando uma desculpa para não ir”, conta a empregada.


Resistência — Essa falta de cuidado levou o pai de Roseanne a ter um princípio de infarto, há cerca de 2 anos. “Acredito que a resistência que os homens têm para cuidar da própria saúde deve-se ao machismo da nossa cultura. O homem não quer mostrar fragilidade, e por isso não se cuida”, opina a empregada, lotada na Gestão de Pessoas. Já a mãe, que é diabética, costuma se preocupar com a saúde. “Ao contrário do meu pai, ela faz os exames de controle rigorosamente”. Os exemplos acima confirmam o que os estudos revelam: as mulheres cuidam mais da saúde que os homens, fazem os exames preventivos e, por isso, vivem mais.


Dr. Wladimir: Essa ideia do macho autossuficiente
prejudica
a prevenção da saúde masculina
(
Foto: arquivo pessoal)


Expectativa de vida — Para o cardiologista Wladimir Magalhães de Freitas, da Rede Credenciada da Postal Saúde, em Brasília, o exemplo acima se confirma na prática das consultas. “É muito comum o homem ser levado ao consultório pela própria família, e não por iniciativa própria. De fato, os consultórios são mais frequentados por mulheres do que por homens”, atesta o médico, que atende pela clínica Biocardios, na quadra 709/905.

Segundo o especialista, normalmente, as mulheres vivem 10 anos a mais que os homens, talvez porque elas costumam frequentar mais os sistemas de saúde. As doenças cardiovasculares que mais matam os homens são o infarto e o Acidente Vascular Cerebral (AVC), mais conhecido como derrame. O infarto é mais frequente entre os homens na faixa etária de 50 a 70 anos e o AVC costuma ser mais comum entre os homens após os 70 anos. Saiba mais: 9 dicas do Dr. Wladimir Magalhães para prevenir doenças cardiovasculares.

Genética — O Dr. Wladimir ressalta que o fator cultural não é o único responsável pela vulnerabilidade da saúde masculina. Há também o fator genético, biológico. “No mundo inteiro, entre os homens prevalece maior incidência de doenças cardiovasculares, como infarto e derrame. Esse é um dado universal”.

Com relação ao aspecto comportamental, defende o cardiologista, é preciso acabar com esses estereótipos informando e conscientizando a população sobre as consequências negativas que eles engendram. “Entre os mais jovens, essa cultura de que o homem não precisa se cuidar está mudando. Essa nova geração já se preocupa com os bons hábitos, com a alimentação e com a saúde, que é o nosso bem maior”, avalia o médico.


Kramer, pai de Eva e Rafael, faz parte de uma nova
geração que se preocupa com a saúde
(Foto: arquivo pessoal)


Checkup — É o caso do analista da Postal Saúde, Kramer Saunders, 32 anos. Pai de Eva, 3 anos, e Rafael, 5, ele costuma realizar exames preventivos todos os anos. “Faço um checkup anualmente para verificar se está tudo bem. Também a cada três meses faço acompanhamento com um nutricionista e um endocrinologista”, conta o empregado.

Os cuidados não são para menos. Campeão de jiu-jitsu na região Centro-Oeste, ele treina seis vezes por semana, de segunda-feira a sábado. “Além de praticar esporte, tenho uma alimentação equilibrada. Mas nem meu pai nem meu padrasto costumam se cuidar”, acrescenta o atleta, confirmando as estatísticas.

“Infelizmente, hoje em dia ainda persiste a ideia de que o homem só deve procurar o serviço médico quando alguma parte do seu corpo está doendo ou sangrando. Essa ideia do macho autossuficiente prejudica a prevenção da saúde masculina ”, alerta o cardiologista Wladimir Magalhães, PhD pela Universidade Estadual de Campinas.

Leia também: Entrevista exclusiva: "O homem só procura o serviço de saúde quando a doença já está instalada", afirma Francisco Norberto


Por: Comunicação/Postal Saúde