16/05/2017 - 17:35 - Atualizado em 22/05/2017 - 09:21

Entrevista — Atenção e afeto não podem ser "terceirizados", diz especialista

Nesta entrevista, a neuropsicóloga da Rede Credenciada da Postal Saúde, Fabíola Oliveira, fala sobre os desafios da convivência familiar na era da Internet e afirma que a família deve participar ativamente da vida dos filhos, “ajudando-os a conviver com o próximo, a identificar emoções, resistir às frustrações, superar situações e resolver problemas”. Acompanhe o bate-papo.

Postal Saúde A era da Internet modificou a relação entre as pessoas?

Fabíola Oliveira Com certeza. A forma de comunicação e de relacionamentos entre as pessoas, em geral, mudou. A exposição exagerada às ferramentas tecnológicas cria inabilidades sociais, tornando as relações rasas e superficiais. Isso se dá devido à popularização da tecnologia. A linguagem visual e muito atraente das telas dos aparelhos eletrônicos é fácil de ser manipulada, possibilitando que o indivíduo tenha diversos tipos de informações necessárias e acesso a pessoas distantes em tempo real. Ao mesmo tempo que isso facilita em alguns aspectos da vida diária e aproxima os distantes, o uso inadequado pode causar o afastamento das pessoas próximas. O problema está na dificuldade de as pessoas usarem adequadamente esses recursos tecnológicos, e não na tecnologia em si.

PS Quais os principais problemas enfrentados com relação à convivência familiar com crianças, adolescentes ou mesmo adultos nessa era digital?

Fabíola Dificuldade na comunicação, distanciamento, isolamento, reclusão emocional e a superficialidade nas relações familiares são alguns dos problemas enfrentados.

PS O uso inadequado da internet e das mídias sociais pode afetar a saúde psicológica, o rendimento escolar e o desenvolvimento saudável de crianças e jovens?

Fabíola Sim. O mau uso pode gerar graves riscos à saúde de crianças e adolescente. Dependência digital, distúrbios do sono, hábitos sedentários, queda do rendimento escolar sem qualquer motivo aparente, afastamento e isolamento social e familiar. Vale mencionar que a exposição excessiva aos recursos tecnológicos pode estimular ou corroborar transtornos de ansiedade, transtornos obsessivos-compulsivos, distúrbios de comportamentos ou condutas antissociais, depressão e suicídio.

PS Em seu consultório de Psicologia, quais as principais queixas apresentadas?

Fabíola Os pais se queixam que os filhos estão cada vez mais isolados, calados, com dificuldades escolares e distantes das atividades familiares. Relatam dificuldades para ter acesso aos filhos e dialogar com eles. Por sua vez, os filhos também se queixam que os estão distantes, mais apegados às redes sociais, menos interessados e pouco envolvidos nas atividades cotidianas. Alguns relatam que os pais parecem estranhos e são pouco confiáveis. É nítida a dificuldade que ambos encontram para a reaproximação e o estabelecimento de novos vínculos afetivos.

PS Quais os desafios enfrentados pela família contemporânea quanto à educação e à formação integral e saudável dos filhos em uma época onde os tabletes, iPhones, iPads e tantos outros recursos tecnológicos invadiram os lares?

Fabíola As crianças e adolescentes da geração atual desde muito cedo têm acesso a uma infinidade de informações digitais, bem como a recursos que possibilitam que se desenvolvam autonomamente. Têm muito mais facilidade e afinidade com a tecnologia que muitos adultos. O principal desafio é participar ativamente da vida dos filhos, ajudando-os a conviver com o próximo, a identificar emoções, resistir às frustrações, superar situações e resolver problemas.

Acompanhar com detalhes a utilização dessas tecnologias pelos filhos, educando-os para o uso correto também é um grande desafio para a família, inclusive para a mãe contemporânea, que tem diversas demandas na sua vida diária. Presença, atenção e afeto não devem ser "terceirizados" ou negligenciados na relação da família com os filhos.

PS Como resgatar a afetividade perdida?

Fabíola A criação do vínculo afetivo depende muito do ambiente e das circunstâncias em que se desenvolve. A afetividade é necessária para o desenvolvimento saudável de um indivíduo. Ela se inicia na família e se estende para outros contextos sociais. Mesmo que tenha sido perdida, é possível resgatar a afetividade nas relações familiares. Para isso, é fundamental proporcionar um ambiente seguro, acolhedor, respeitoso e com uma comunicação aberta, em que cada membro tenha liberdade de expor seus pensamentos e sentimentos.

PS Que recursos a família pode e deve utilizar para construir uma relação saudável com os filhos, olho no olho, sem competir com o mundo virtual?

Fabíola Dedicar tempo de qualidade para os filhos, demonstrar interesse por eles, pelas atividades que desenvolvem, pelos amigos, dialogar (diferente de monólogo), respeitar (diferente de permissividade), incentivar que eles façam parte das decisões que lhes cabem, criar um ambiente de cooperação e de respeito e amar os filhos. O amor não é apenas um sentimento. O amor é atitude. Isso significa que os filhos precisam ouvir que são amados, mas principalmente precisam perceber, viver as atitudes reais do amor de seus pais.

Foto: Arquivo Postal Saúde

Leia também: Acompanhe de perto a interação do seu filho com o mundo virtual