Artigo | Saúde 5.0: A tecnologia como aliada das redes de cuidado no Brasil

Diretor-Presidente da Postal Saúde e Vice-Presidente da Unidas Autogestão, Eli Melo Jr. 

A transformação digital deixou de ser uma promessa distante para se consolidar como um elemento central do setor de saúde no Brasil. Sistemas eletrônicos, telessaúde, inteligência artificial e prontuários digitais já fazem parte da rotina de hospitais, clínicas e serviços assistenciais. O desafio que se impõe, no entanto, não está apenas na adoção dessas tecnologias, mas na forma como elas são integradas às redes de cuidado, preservando o atendimento humanizado e a centralidade do paciente.

Nesse cenário, o conceito de Saúde 5.0 ganha relevância ao propor um modelo que combina inovação tecnológica, eficiência operacional e valorização das relações humanas. Trata-se de uma abordagem que reconhece a tecnologia como meio, e não como fim, orientada para qualificar a assistência, fortalecer vínculos e ampliar o acesso aos serviços de saúde.

Dados da última pesquisa TIC Saúde, realizada pelo Cetic.br|NIC.br, evidenciam o avanço da digitalização no país. Atualmente, 92% dos estabelecimentos de saúde utilizam sistemas eletrônicos para o registro de informações dos pacientes. Nas Unidades Básicas de Saúde, esse percentual chega a 97%. Esses números revelam um movimento consistente de informatização, com impacto direto na segurança do paciente, na redução de erros assistenciais e na integração entre diferentes pontos da rede de atenção.

Ao mesmo tempo, a pesquisa aponta que o uso de tecnologias mais avançadas, como ferramentas de inteligência artificial generativa, ainda ocorre de forma incipiente entre os profissionais de saúde. Cerca de 17% dos médicos e 16% dos enfermeiros relataram utilizar esses recursos, principalmente para apoio em pesquisas e na elaboração de registros clínicos. Embora modestos, esses indicadores sinalizam um caminho irreversível de incorporação tecnológica no cotidiano assistencial.

O dado que merece maior atenção, contudo, está na capacitação profissional. Apenas 23% dos médicos e enfermeiros realizaram algum tipo de formação em informática em saúde no período analisado. Esse descompasso entre avanço tecnológico e preparo das equipes representa um risco concreto para a efetividade da transformação digital. Sem capacitação adequada, a tecnologia pode se tornar subutilizada ou até gerar novos problemas nos fluxos de cuidado.

É nesse ponto que o papel das redes credenciadas se torna estratégico. Hospitais, clínicas, laboratórios e profissionais que integram essas redes precisam estar preparados para operar em ambientes cada vez mais digitalizados, com interoperabilidade de sistemas, segurança da informação e uso ético dos dados em saúde. A adoção de tecnologias deve ser acompanhada de investimentos contínuos em treinamento, protocolos assistenciais e governança clínica.

A Saúde 5.0 pressupõe redes de atenção integradas, capazes de compartilhar informações de forma segura e eficiente, garantindo continuidade do cuidado ao longo da jornada do paciente. Tecnologias como prontuários eletrônicos interoperáveis, telessaúde e análise de dados têm potencial para aproximar profissionais, reduzir deslocamentos desnecessários e otimizar recursos, desde que estejam alinhadas a práticas assistenciais centradas na pessoa.

Outro aspecto fundamental dessa transformação é a segurança da informação. A ampliação do uso de sistemas digitais exige maior maturidade na proteção de dados sensíveis, especialmente diante das exigências da Lei Geral de Proteção de Dados. Avanços como o uso de criptografia, certificados digitais e políticas de resposta a incidentes são passos importantes, mas ainda desiguais entre os diferentes segmentos do sistema de saúde brasileiro.

A tecnologia, quando bem integrada às redes credenciadas, amplia o acesso, reduz desigualdades regionais e contribui para a sustentabilidade do setor. No entanto, ela só cumpre plenamente seu papel quando caminha lado a lado com a valorização dos profissionais de saúde, a qualificação contínua e o compromisso com o cuidado humanizado.

A Saúde 5.0 não é apenas um estágio tecnológico, mas uma escolha estratégica. É a decisão de utilizar a inovação para fortalecer o sistema de saúde como um todo, colocando as pessoas no centro e as redes de cuidado como protagonistas de um modelo mais eficiente, seguro e humano.

Artigo publicado pelo Jornal de Brasília, no dia 6 de fevereiro de 2026.

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