III Simposio de Saude da ABEA-DF

Postal Saúde destaca papel estratégico da auditoria na qualidade do cuidado

Thiago Braga, diretor de Operações de Saúde, e João Moura, gerente executivo, participaram, nesta quinta-feira (1º), de debate promovido pela Associação Brasileira dos Enfermeiros Auditores do DF sobre dados, modelos de remuneração, integração assistencial e o papel estratégico da auditoria.

Como transformar informação em decisões que melhorem o cuidado sem comprometer a sustentabilidade das operadoras? Essa foi uma das questões centrais do III Simpósio de Saúde da ABEA-DF, realizado nesta quinta-feira (1º), em Brasília. Com o tema “Inteligência em saúde: dados, evidências e valor para auditoria estratégica”, o encontro reuniu especialistas e gestores para discutir desafios como a fragmentação da assistência, a remuneração vinculada ao volume de procedimentos e a busca por resultados concretos para os beneficiários.

Thiago Braga, diretor de Operações de Saúde da Postal Saúde, integrou o painel de especialistas ao lado do Dr. Scarabel, do escritório M3BS Advogados, e Rosana Souza, da Geap. A conversa foi mediada por João Moura, gerente executivo de Rede da Postal Saúde, que conduziu o debate sobre os desafios regulatórios, as mudanças nos modelos assistenciais e a contribuição dos auditores para o avanço das autogestões em saúde.

Em sua participação, Thiago Braga chamou a atenção para uma contradição que ainda marca o setor. Embora o cuidado baseado em valor esteja cada vez mais presente no discurso, os incentivos econômicos continuam, em grande parte, associados à quantidade de procedimentos realizados. Para ele, qualquer mudança consistente precisa começar por uma discussão transparente sobre a forma como prestadores, operadoras e profissionais são remunerados.

“Não dá para defender um cuidado melhor e, ao mesmo tempo, manter um sistema que remunera mais quem simplesmente faz mais. Enquanto os incentivos continuarem desalinhados, qualquer tentativa de mudança terá pouca chance de avançar”, afirmou Braga.

Segundo Braga, a lógica do pagamento por volume atravessa toda a cadeia, da remuneração dos prestadores aos critérios adotados na auditoria. O desafio, disse, é avançar para modelos que reconheçam qualidade, desempenho e desfechos, dividindo responsabilidades entre todos os envolvidos na jornada assistencial.

“Precisamos construir uma relação em que uma entrega melhor também seja mais bem remunerada. Isso passa por compartilhar riscos, definir indicadores claros e assumir um compromisso verdadeiro com o resultado do cuidado”, pontuou.

Outro ponto de destaque foi a integração dos dados. Braga observou que coordenar o percurso de um beneficiário em redes abertas e fragmentadas se torna especialmente difícil quando cada prestador trabalha com sistemas, processos e culturas diferentes. Sem comunicação entre essas estruturas, informações importantes sobre internações, contrarreferências e condições que poderiam ser acompanhadas na atenção primária nem sempre chegam a quem precisa decidir.

“Sem interoperabilidade e rastreabilidade, fica muito difícil acompanhar o beneficiário de forma consistente. Para coordenar o cuidado, a informação precisa circular e chegar a quem pode transformá-la em ação”, ressaltou.

Ao tratar de caminhos possíveis, o diretor defendeu que a atenção secundária seja avaliada também pela qualidade e pela agilidade da contrarreferência. Citou ainda a adoção, pelos hospitais, de metas para reduzir eventos adversos e reinternações, além do reconhecimento da atenção primária pelos resultados alcançados na saúde da população, e não apenas pelo número de procedimentos realizados.

Essa mudança também redefine o trabalho da auditoria. Em vez de se limitar à conferência de contas e às glosas, o auditor pode ajudar a medir a qualidade do cuidado, antecipar riscos e transformar desfechos assistenciais em indicadores úteis para a gestão e para os modelos de remuneração.

“O auditor precisa ir além do processamento da conta. O desafio é olhar para o desfecho, traduzi-lo em indicadores e fazer com que essa informação também pese na remuneração. Essa é uma discussão estratégica que precisamos enfrentar juntos”, provocou Braga.

O debate também mostrou que a tecnologia e a inteligência artificial podem ampliar a capacidade de análise, mas não substituem o olhar profissional diante de situações complexas. Ao falar sobre desospitalização, Braga lembrou que uma alta considerada adequada do ponto de vista técnico pode não ter o resultado esperado se as condições familiares, sociais e estruturais do beneficiário não forem levadas em conta.

“Cumprir o protocolo é só uma parte da decisão. Também precisamos saber se a casa está preparada, se há apoio familiar e se aquela alta realmente reduz riscos ou pode levar a uma nova internação, ainda mais cara. Não existe eficiência sem olhar para a vida real do beneficiário”, afirmou.

Para Braga, esse cuidado mais amplo depende da integração entre auditoria, regulação, gestão assistencial e as áreas social, financeira e comercial. Quando a análise é fragmentada, pode até resolver uma etapa específica, mas corre o risco de ignorar a origem do problema e seus efeitos sobre toda a jornada do beneficiário.

“Quando cada área olha apenas para a sua parte, podemos até cumprir o protocolo, mas não necessariamente resolver o problema. A saúde precisa ser vista de forma integral, com todos trabalhando pelo mesmo propósito”, acrescentou o diretor da Postal.

Durante a mediação, João Moura ressaltou a experiência prática dos auditores na construção de novos modelos de negociação. Segundo o gerente executivo da Postal Saúde, esses profissionais conhecem de perto os desperdícios, os gargalos e as particularidades dos prestadores e, por isso, precisam participar das análises que antecedem acordos e mudanças na forma de remuneração.

O debate entre os especialistas demonstrou que a sustentabilidade da saúde suplementar não se resume ao controle de despesas. Ela passa por dados integrados, incentivos coerentes, avaliação de resultados e trabalho conjunto entre diferentes áreas. Nesse contexto, a auditoria deixa de ser apenas uma instância de fiscalização e assume uma função estratégica na melhoria da qualidade, na prevenção de riscos e na proteção do beneficiário.

“Precisamos ir além do olhar superficial, fazer as perguntas difíceis e reunir quem conhece cada etapa do cuidado. A transformação começa quando o modelo deixa de premiar apenas o volume e passa a reconhecer valor, qualidade e resultado”, concluiu Thiago Braga.

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