A Postal Saúde encerra o mês de abril destacando uma das campanhas mais relevantes do período para a conscientização e a disseminação de informações: o Abril Azul, dedicado à conscientização e ao debate sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Profissionais da saúde têm se debruçado sobre diversos estudos e pesquisas a respeito do diagnóstico, que vem sendo cada vez mais discutido e identificado inclusive na fase adulta.
O autismo é uma condição do neurodesenvolvimento que impacta a comunicação, a interação social e o comportamento do indivíduo. O termo “espectro” refere-se às diferentes formas como a condição pode se manifestar.
Para esclarecer alguns questionamentos comuns sobre o tema, a Postal Saúde entrevistou a psicóloga Izabella de Oliveira. Ela atua na área de Psicologia Clínica e Desenvolvimento Infantil e é pós-graduanda em Análise do Comportamento Aplicada (ABA); trabalha com crianças e adolescentes, especialmente no contexto do Transtorno do Espectro Autista (TEA), com foco em intervenções baseadas em evidências. Atualmente, atende na Clínica Mudança Psicologia, credenciada parceira da Postal Saúde em Brasília/DF.
Postal Saúde: Os primeiros sinais de autismo podem ser identificados a partir de quantos anos?
Dr. Izabella de Olivera: Os primeiros sinais podem aparecer ainda nos primeiros anos de vida, muitas vezes antes dos 2 anos. Porém é importante dizer que cada criança se desenvolve de uma forma. Em algumas, os sinais ficam mais evidentes entre 18 e 24 meses, especialmente quando há atraso na fala, dificuldade nas interações sociais, brincadeiras mais repetitivas ou uma sensibilidade maior a sons, texturas e mudanças na rotina.
O mais importante é: se a família percebe algo diferente no desenvolvimento, não precisa esperar “passar com o tempo”. Procurar uma avaliação profissional não significa fechar um diagnóstico imediatamente, mas, sim, olhar com cuidado para aquela criança.
Postal Saúde: Foram criados alguns símbolos relacionados ao TEA, como quebra-cabeça e girassóis, usados para identificar as pessoas autistas e como uma forma de representação e apoio ao tema. Todos eles são utilizados atualmente e ajudam no dia a dia?
Dr. Izabella de Oliveira: Sim, alguns símbolos ainda são utilizados, mas é importante entender que eles não têm o mesmo significado para todas as pessoas autistas e famílias. O quebra-cabeça, por exemplo, foi muito usado historicamente, mas hoje também é questionado por parte da comunidade autista, porque algumas pessoas sentem que ele passa uma ideia de “falta” ou de que a pessoa precisa ser “encaixada”. Já o símbolo do infinito, principalmente o colorido, tem sido muito usado para representar a neurodiversidade e a ideia de que o autismo é um espectro, com diferentes formas de existir, sentir e se comunicar.
O girassol também é usado em alguns contextos para representar deficiências ocultas, ou seja, condições que nem sempre são percebidas visualmente. Ele pode ajudar em situações do dia a dia, como filas, aeroportos, atendimentos e espaços públicos, porque sinaliza que aquela pessoa pode precisar de mais compreensão, tempo ou suporte. Mas eu gosto sempre de reforçar: símbolo ajuda na conscientização, mas não substitui acolhimento. Mais importante do que reconhecer um símbolo é saber respeitar a pessoa autista.
Postal Saúde: Quais os principais desafios enfrentados pelos autistas e como contribuir para o acolhimento?
Dr. Izabella de Oliveira: Os desafios podem variar muito, porque o autismo é um espectro. Algumas pessoas vão ter mais dificuldades na comunicação, outras na interação social, outras com questões sensoriais, rigidez na rotina, seletividade alimentar, crises, dificuldade de adaptação ou de compreender certas regras sociais. Um dos grandes desafios, na minha visão, é a falta de compreensão do ambiente. Muitas vezes a pessoa autista não está “fazendo birra”, “sendo mal-educada” ou “querendo chamar atenção”, ela pode estar sobrecarregada, com dificuldade de se expressar ou tentando lidar com estímulos que, para nós, parecem simples, mas para ela podem ser muito intensos.
Para acolher, a primeira coisa é trocar julgamento por escuta. Falar de forma clara, respeitar o tempo da pessoa, evitar forçar contato visual, preparar mudanças com antecedência, reduzir estímulos quando possível e orientar outras pessoas ao redor já faz muita diferença. Acolher não é tratar com pena. É oferecer respeito, previsibilidade e oportunidade para que a pessoa participe da vida social do jeito dela.